Gyselle Soares: da televisão internacional ao ativismo social, uma voz que se reinventa
BY Oscar Muller
15 de Maio, 2026
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De participante marcante de reality show a protagonista de uma trajetória internacional, Gyselle Soares segue escrevendo capítulos de uma história que ultrapassa fronteiras — geográficas e pessoais. Primeira piauiense a chegar à final do Big Brother Brasil, ela conquistou o público com sua autenticidade e, desde então, transformou visibilidade em propósito.
Após brilhar nos palcos da França e construir uma carreira artística no exterior, Gyselle retorna ao Brasil com um novo olhar: mais engajado, mais consciente e profundamente conectado às causas sociais. Hoje, à frente do programa Gyselle Cajuína Sem Filtro, na FM Clube 99.1, no Piauí, ela abre espaço para discussões que vão além do entretenimento, abordando temas como política, cultura, saúde e comportamento.
Mas é fora dos estúdios que sua atuação ganha ainda mais força. Pré-candidata a deputada federal pelo Partido Progressista, Gyselle assume publicamente o desejo de transformar realidades.
“Decidi ingressar na política porque vejo que o meu estado ainda oferece poucas oportunidades e projetos sociais voltados para quem vem da periferia da comunidade, assim como eu”, afirma.
O engajamento, no entanto, não é recente. Há mais de dez anos, ela se dedica a iniciativas voltadas a famílias atípicas, inclusão social e combate à violência contra a mulher — uma causa que carrega também em sua própria história. Em 2019, quando vivia na França, Gyselle foi vítima de violência doméstica, experiência que marcou profundamente sua trajetória e motivou seu retorno ao Brasil.
“Eu vivenciei a violência doméstica e sei o quanto é urgente dar voz e proteção às mulheres. Essa é uma causa que defendo com toda a minha força”, declara, evidenciando a conexão entre sua vivência pessoal e sua atuação pública.
Determinada a se preparar para novos desafios, ela buscou formação no RenovaBR, onde foi selecionada entre mais de 50 mil inscritos. Durante quatro meses de imersão, estudou gestão pública, ética e liderança.
“Essa formação é rigorosa e me dá a base necessária para representar o meu povo com a seriedade que o Piauí merece”, destaca.
Paralelamente, Gyselle percorre o estado com o projeto Recriando sua Realidade, uma palestra motivacional que traduz, em palavras e experiências, sua própria jornada de superação. A proposta é clara: inspirar outras pessoas a reescreverem suas histórias, independentemente das adversidades.
Após 17 anos vivendo na Europa, seu retorno definitivo ao Brasil, no início da pandemia, marcou também uma reconexão com suas raízes. Na Band Piauí, comandou o Tour da Cajuína e dividiu a apresentação de um especial sobre Teresina com o jornalista Zeca Camargo.
Nos palcos, viveu a Imperatriz Leopoldina no espetáculo Caminhos da Independência, em São Paulo, contracenando com Alexandre Borges — mais um capítulo que reforça sua versatilidade artística.
Autora do livro Bonjour! Como fazer uma carreira de sucesso fora do Brasil, lançado em 2021 com apresentação de Pedro Bial, Gyselle compartilha os bastidores de uma trajetória construída com coragem e resiliência. Da experiência como empregada doméstica e babá no exterior ao glamour do tapete vermelho do Festival de Cannes, sua história revela um percurso de transformação contínua.
Hoje, mais do que uma figura pública, Gyselle Soares se consolida como uma voz ativa em temas sociais e uma representante de histórias que, por muito tempo, permaneceram à margem. Uma trajetória que inspira — não apenas pelo que foi conquistado, mas pelo que ainda está por vir.
Entrevista:
RMB – Você saiu de uma realidade simples no Piauí para conquistar espaço internacional. Em que momento percebeu que sua história poderia inspirar outras mulheres?
Gyselle – Percebi que minha história poderia inspirar outras mulheres quando entendi que a nossa origem não define o nosso destino. Não importa de onde viemos; mesmo saindo de um lugar humilde ou difícil, se tivermos curiosidade e vontade, desenvolvemos a inteligência e a força necessárias para vencer.
Eu quebrei muitas barreiras. Comecei lavando pratos e trabalhando como doméstica em Genebra, na Suíça, e hoje celebro uma trajetória de 17 anos de carreira consolidada na França, com filmes na Netflix e passagens pelo Festival de Cannes. No Brasil, conquistei meu espaço no BBB e como atriz. Sou prova de que quebrar essas fronteiras é possível quando sonhamos alto e não temos medo do futuro. Se você profetiza e trabalha, o seu lugar no mundo está garantido.
RMB – Depois de viver o glamour e os desafios da Europa, o que fez você decidir voltar ao Brasil e se posicionar de forma tão ativa na sociedade?
Gyselle – É importante quebrar barreiras, porque muitas vezes a sociedade, especialmente a chamada “alta sociedade”, funciona como um círculo fechado, cheio de preconceitos e olhares de cima para baixo. Mas não importa de onde viemos: seja da periferia, como é o meu caso, é possível construir uma trajetória bonita, inspiradora e com um currículo sólido.
Com curiosidade, determinação e o desejo de um futuro melhor, conseguimos superar dificuldades. Eu mesma não tive a presença de um pai na minha criação, e minha mãe, em 1989, quando eu tinha 5 anos, fugiu com quatro filhos pequenos, recriando a própria realidade. Essa força feminina dentro da minha família me ensinou a vencer na vida.
Passei por muito preconceito: por ser nordestina, enfrentei xenofobia, sofri discriminação por ser brasileira. Mas eu quebrei esses paradigmas mostrando minha personalidade, minhas qualidades e meus talentos, que abriram portas e me deram oportunidades.
Quebrar preconceitos e paradigmas não é fácil, mas é possível. Minha história prova que, com coragem e persistência, podemos transformar qualquer origem em inspiração e conquista.
RMB – Sua entrada na política vem carregada de propósito. Que tipo de transformação vocêquer provocar, especialmente para mulheres e pessoas da periferia?
Gyselle – O meu propósito no Piauí, como pré-candidata a deputada federal, nasce da minha trajetória como artista e ativista pela inclusão social e pela luta contra a falta de oportunidades. Muitas vezes precisei sair do meu estado e até do Brasil para buscar espaço, porque oportunidades raramente aparecem e quando surgem, precisamos agarrá-las. Eu nunca desisti das chances que tive, porque queria transformar a minha vida e a da minha família.
Carrego comigo a memória das dificuldades que enfrentamos: momentos em que minha mãe passou fome para que nós, seus filhos, pudéssemos nos alimentar. Essa realidade me deu a certeza de que não queria ver mais ninguém passar pelo mesmo sofrimento. Por isso, trago para a política o compromisso de ampliar a inclusão e abrir portas para quem nunca teve espaço.
No Piauí, ainda vivemos sob um sistema fechado, marcado pelo coronelismo e pelas mesmas famílias no poder. Prefeitos, esposas, filhos e governadores se revezam, enquanto a população continua sem oportunidades. Minha indignação é contra esse ciclo que limita os sonhos de quem vem da periferia, de quem tem talento, de quem quer empreender, mas não encontra apoio.
Eu acredito nos novos líderes que surgem do zero, que vêm de baixo e que têm energia para fazer diferente. A minha missão é abrir caminhos para essas pessoas, para que possam mostrar seu valor e construir um futuro melhor. Sei que não vou mudar o mundo sozinha, mas posso ajudar a mudar a realidade do meu estado, dando esperança e orgulho ao povo piauiense.
RMB – Você já falou abertamente sobre ter sido vítima de violência doméstica. Como transformar dor em força e ainda expor essa história publicamente?
Gyselle – No começo é sempre muito difícil, principalmente para muitas mulheres que não têm amparo, que não encontram uma mão estendida. Muitas vezes, até dentro da própria família, elas são maltratadas e julgadas. Há também a questão da educação e do apoio: muitas sentem vergonha de contar o que passaram.
Eu tenho uma história forte nesse sentido. Depois do BBB, minha mãe se formou aos 55 anos, provando que nunca é tarde para realizar sonhos. Ela trabalhou por 13 anos na Delegacia da Mulher, defendendo a Lei Maria da Penha e lutando pelas mulheres. É uma trajetória linda. Mas, mesmo assim, quando vivi um momento terrível na França em 2019, com um noivo, eu senti vergonha de contar para ela.
Fugi, voltei para o Brasil e busquei amparo na minha família. Só depois de meses de tratamento psicológico e medicação consegui me curar. Hoje, transformei essa dor em força para ajudar outras mulheres. Quero dizer: não tenham vergonha, a culpa não é de vocês. Vocês podem e devem falar, denunciar, colocar a boca no trombone.
O silêncio é fruto do medo e da dependência emocional, e isso é revoltante. Por isso, acredito que precisamos educar desde cedo, criar leis que levem essa consciência para dentro das escolas e combater o machismo estrutural. Esses são alguns dos projetos que quero desenvolver, especialmente no meu Nordeste e no meu estado do Piauí, que ainda carrega muito desse peso cultural.
RMB – O quanto sua vivência fora do país ampliou sua visão sobre desigualdade social e oportunidades no Brasil?
Gyselle – Morei na Europa por 17 anos e pude conhecer muitos projetos sociais que unem comunidades com grandes empresários e pessoas de alto poder aquisitivo. São iniciativas transformadoras, voltadas para educação, saúde e inclusão. Essa experiência me inspira a trazer ideias semelhantes para o meu estado.
Quero criar espaços grandiosos voltados para a saúde mental, porque acredito que tudo começa por ela. Sem saúde mental, é difícil ter esperança, dignidade no trabalho e qualidade de vida. Hoje, o Piauí ocupa o terceiro lugar em índices de depressão, e muitas pessoas vivem sem perspectiva de futuro. Precisamos oferecer tratamento e apoio para que elas possam reconstruir suas vidas.
Infelizmente, quem está na periferia ou em comunidades carentes não encontra portas abertas. Falta oportunidade, falta acolhimento. Por isso, quero trazer essa visão que vi na Europa para cá, adaptada à nossa realidade.
Já faço parte dessa transformação com meu projeto social “Recriando a Sua Realidade”, que trabalha com famílias atípicas. Nele, oferecemos apoio no empreendedorismo, ajudando essas pessoas a profissionalizar seus produtos e gerar renda, já que muitas não podem trabalhar fora porque precisam cuidar dos filhos. Também desenvolvemos ações voltadas para a saúde mental, criando espaços de acolhimento e esperança.
Há muito a ser feito no Piauí. Como nova liderança, quero ser parte dessa mudança, abrindo caminhos e mostrando que é possível construir um futuro melhor para todos.
RMB – Em um cenário onde muitas pessoas desacreditam da política, como você pretende reconectar a população com esperança e representatividade?
Gyselle – É muito importante que mulheres votem em mulheres. Se hoje temos direitos e deveres reconhecidos, é porque outras mulheres, corajosas e fortes, quebraram barreiras antes de nós. Por isso, precisamos acreditar umas nas outras: só nós sabemos, de verdade, as dores que outras mulheres enfrentam.
Mulher não é sexo frágil. Pelo contrário, somos capazes de exercer várias funções ao mesmo tempo e de transformar realidades. Precisamos quebrar esse estigma e, acima de tudo, dar as mãos umas às outras.
Na política e na vida, ainda existe a rivalidade feminina, e isso precisa ser exterminado. Essa rivalidade nos enfraquece e impede avanços importantes: novas leis, projetos sociais e um futuro melhor para todas. Quando nos unimos, nos tornamos invencíveis.
O caminho é crescer juntas, apoiar umas às outras e construir uma sociedade mais justa. Só assim conseguiremos mudar a realidade e abrir espaço para mais conquistas femininas.
RMB – O projeto Recriando sua Realidade carrega muito da sua essência. Qual é a principal virada de chave que você quer provocar em quem te escuta?
Gyselle – O projeto social Recreacional Realidade vai muito além de palestras motivacionais e socioeducativas. Nosso foco é trabalhar a saúde mental e a inspiração, mostrando que é possível sair da periferia e construir uma carreira de sucesso, tanto nacional quanto internacional. Queremos motivar mulheres e homens a acreditarem em si mesmos e em suas capacidades.
Mas não paramos aí. O projeto também promove socialização e empreendedorismo, criando oportunidades reais para quem precisa. Realizamos eventos que não se limitam às palestras em faculdades, escolas e empresas também desenvolvemos ações práticas e físicas.
Um exemplo foi o último projeto que organizei: a valorização dos piauienses. Muitas vezes, os artistas locais são desvalorizados, seja nos cachês ou nas oportunidades de eventos. Para mudar isso, criamos o Bazar dos Artistas Piauienses, que além de valorizar os talentos da nossa terra, arrecadou doações de roupas que beneficiaram mais de dez associações.
Essas iniciativas mostram que é possível transformar a realidade do nosso estado com ações concretas. O Recreacional Realidade é sobre abrir portas, dar voz e criar oportunidades para quem mais precisa.
RMB – Se pudesse resumir sua jornada em uma mensagem para outras mulheres que enfrentam dificuldades, qual seria?
Gyselle – Você nunca está sozinho. Se eu cheguei onde cheguei, foi porque tive pessoas, verdadeiros anjos, que acreditaram em mim, no meu talento e na minha força de vontade. Por isso, acredito que todos podem sair daquele lugar em que se sentem abandonados, como se estivessem em um buraco sem saída. Existe sempre uma luz, mas é preciso esforço e coragem para buscá-la.
O que eu digo para quem enfrenta dificuldades, sejam mulheres ou homens, é: você nunca está sozinho. Procure uma rede de apoio, compartilhe sua dor, busque ajuda. Quando você se abre, descobre que existem pessoas dispostas a estender a mão e caminhar ao seu lado.
Créditos:
Capa: Gyselle Soares
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