O Carnaval é reconhecido mundialmente como a maior festa popular do planeta. Nas avenidas, quadras e blocos, o samba celebra cultura, resistência e alegria. No entanto, por trás do brilho das fantasias e do som vibrante das baterias, ainda existe uma realidade que precisa ser enfrentada: a violência contra a mulher dentro e fora do universo do samba.
Todos os anos, milhares de mulheres ocupam posições fundamentais no Carnaval. São passistas, baianas, ritmistas, rainhas de bateria, dirigentes, compositoras e profissionais que trabalham intensamente para que o espetáculo aconteça. Apesar desse protagonismo, muitas ainda relatam episódios de assédio, agressões físicas e violência psicológica, tanto nos bastidores quanto nos espaços públicos da festa.

Caso de agressão em ensaio da Vai-Vai ganhou repercussão nacional
Um episódio que ganhou grande repercussão ocorreu em 2019, durante um ensaio técnico da escola de samba Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai‑Vai, realizado no Sambódromo do Anhembi.
Na ocasião, um integrante da diretoria da escola, identificado como Anderson Roberto, conhecido como Pepê, foi filmado agredindo sua ex-namorada enquanto o ensaio acontecia na avenida. As imagens, que circularam rapidamente nas redes sociais e na imprensa, mostravam o momento em que ele puxava a mulher pelos cabelos e a empurrava na lateral da pista do sambódromo.


Pessoas que acompanhavam o ensaio reagiram imediatamente, gritando “Maria da Penha”, em referência à Lei Maria da Penha. Segundo a investigação policial, o casal havia mantido um relacionamento de cerca de cinco meses e estava separado havia aproximadamente quatro meses quando a agressão ocorreu.
O caso foi investigado pela 4ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, e o agressor acabou indiciado pelos crimes de injúria real e ameaça. A Justiça também concedeu medida protetiva, determinando que ele não se aproximasse da vítima nem de seus familiares.

Escola de samba repudiou o episódio
Após a repercussão do caso, a diretoria da Vai-Vai divulgou nota oficial repudiando a agressão e anunciou o afastamento imediato do integrante envolvido.
O então presidente da escola, Darly Silva, classificou o episódio como “uma agressão covarde e deplorável” e informou que o responsável seria excluído das atividades da agremiação.
A repercussão também levou entidades do Carnaval a reforçarem medidas de segurança e a discutir a presença do agressor em eventos carnavalescos.

Outro episódio de violência em desfile no Espírito Santo
Outro caso envolvendo violência em ambiente carnavalesco ocorreu durante os desfiles das escolas de samba de Vitória. Uma confusão na avenida começou após uma mulher da equipe de segurança afirmar ter sido agredida por um homem armado ao tentar impedir seu acesso a uma área restrita do evento.
A situação gerou tumulto e exigiu a intervenção das autoridades presentes.
Casos como esses demonstram que a violência contra a mulher não desaparece nem mesmo em espaços de celebração cultural.
O assédio invisível nos blocos e nas quadras
Especialistas apontam que a violência durante o Carnaval nem sempre aparece em manchetes. Muitas vezes ela se manifesta na forma de assédio sexual, toques sem consentimento, ameaças ou agressões verbais.
Campanhas de conscientização promovidas por órgãos públicos e organizações sociais alertam que a festa ainda é vista por alguns como um ambiente de “permissividade”, no qual limites são ultrapassados. Esse comportamento reforça a necessidade de campanhas educativas e de fiscalização constante.
Dentro das quadras e comunidades das escolas de samba, muitas mulheres também relatam enfrentar machismo estrutural, dificuldades para ocupar cargos de liderança e situações de desrespeito que, por décadas, foram naturalizadas.

Mulheres: pilares da história do samba
Apesar das adversidades, o samba sempre foi construído com a participação decisiva das mulheres. As tradicionais baianas, as matriarcas das comunidades, compositoras e lideranças de quadra têm papel fundamental na história das escolas de samba.
São elas que preservam tradições, organizam comunidades e mantêm viva a memória cultural do Carnaval.
Hoje, a luta vai além do reconhecimento histórico: envolve também segurança, respeito e igualdade dentro do próprio ambiente que ajudaram a construir.


Denunciar é romper o ciclo
Nos últimos anos, campanhas dentro do Carnaval passaram a incentivar denúncias e ações de proteção às vítimas. Escolas de samba, ligas carnavalescas e órgãos públicos ampliaram debates sobre violência de gênero, estimulando vítimas a buscar ajuda.
O combate à violência contra a mulher passa também pela conscientização coletiva. Respeito não pode ser fantasia de Carnaval — precisa ser regra todos os dias.

O desafio do samba no século XXI
O Carnaval é símbolo de liberdade, identidade e resistência cultural. Para que continue sendo essa expressão genuína do povo brasileiro, especialistas defendem que é fundamental garantir que as mulheres possam ocupar a avenida com segurança, respeito e dignidade.
Afinal, sem elas não existe samba.
E sem respeito, não existe festa.
Por: Edinho Meirelys
Foto: Divulgação

