Modelo, atriz, empresária, estilista e jornalista, Magda Cotrofê construiu uma carreira marcada pela versatilidade e tornou-se um dos nomes emblemáticos da moda e do entretenimento brasileiro
Muito antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos do Brasil nos anos 1980, Magda Cotrofê já demonstrava que sua história seria construída sob os holofotes. Nascida em Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro, iniciou sua trajetória artística ainda criança. Aos oito anos, participava de peças infantis no Teatro de Bolso e realizava trabalhos fotográficos para jornais e revistas locais.
Na adolescência, outro talento chamava atenção: a patinação artística. Conhecida na cidade como a “ás dos patins”, aos 14 anos já trabalhava como professora de patinação no Automóvel Clube. Paralelamente, começou a participar de concursos de beleza, entre eles Brotinho Azul e Garota Atafona.

“Desde muito nova, sempre fui movida pela arte, pelo movimento e pela vontade de experimentar coisas novas. Quando olho para aquela menina de Campos, percebo que muitos dos sonhos que eu tinha começaram ali.”
Do interior do Rio para o Brasil
Em 1982, Magda mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar Educação Física. Na capital fluminense, continuou participando de concursos, como Garota Carinho, Garota Circus e Miss Rio de Janeiro, realizado no programa de Silvio Santos.
A crescente exposição abriu caminho para a carreira profissional de modelo. Magda formou-se no curso de modelo profissional do SENAC e rapidamente passou a receber convites para editoriais, capas de revistas, desfiles, campanhas publicitárias e produções realizadas em diferentes regiões do país.

Na década de 1980, consolidou-se entre as modelos de maior projeção nacional, em uma geração que também revelou nomes como Luiza Brunet e Xuxa. Um dos capítulos mais conhecidos de sua carreira foi sua presença na revista Playboy, estampando a capa da publicação por três anos consecutivos — 1985, 1986 e 1987.
“Aquela época foi muito intensa. A moda brasileira estava vivendo grandes transformações e eu tive a oportunidade de fazer parte desse momento. Mais do que a exposição, o que ficou foi a possibilidade de abrir caminhos, construir minha identidade e mostrar que uma modelo também poderia transitar por diferentes áreas.”
Das passarelas para a televisão e o cinema
A projeção conquistada na moda levou Magda à televisão. Em 1985, foi contratada pela Rede Globo para interpretar Liliane, mulher do personagem Rochinha, no humorístico Viva o Gordo, ao lado de Jô Soares. Posteriormente, participou também do Veja o Gordo, no SBT.

Sua trajetória na televisão inclui novelas, humorísticos, programas de auditório e outras produções. Ao longo dos anos, esteve em atrações comandadas por nomes como Silvio Santos, Hebe Camargo, Chacrinha, Flávio Cavalcanti, Gugu Liberato, Gilberto Barros, Chico Anysio e Jô Soares, além de participações em produções como Os Trapalhões, Armação Ilimitada, TV Pirata, Casseta & Planeta e Zorra Total.
Magda também participou de videoclipes de artistas como Erasmo Carlos, Emílio Santiago e da banda Rádio Táxi.
No cinema, interpretou Ritinha em Solidão, Uma História de Amor, contracenando com Pelé, e integrou a produção internacional I Love Rio. Como apresentadora, esteve à frente do programa Rio Mulher, na Rede OM, ao lado de Helo Pinheiro. No teatro, integrou o elenco da peça O Fruto Proibido.
Uma brasileira no cenário internacional
A carreira de Magda também ultrapassou as fronteiras do país. Entre seus trabalhos internacionais estão ações ligadas à divulgação do biquíni fio dental em Ibiza, desfiles em Madrid e Roma, além de editorial de moda para a Harper’s Bazaar, em Nova York, e matéria para a revista alemã Quick.


No Brasil, estrelou campanhas para marcas como Coppertone, Poesi, Du Loren, Davene, Alma de Flores, Sony e Guaraná Brahma, entre outras. Também estampou publicações como Nova (Cosmopolitan), Manchete, Carinho, Claudia, Fatos & Fotos e Playboy.
O Carnaval tornou-se outro capítulo importante de sua história. Durante anos, Magda desfilou como destaque, madrinha de alas e passista em escolas de samba, além de ser convidada para ocupar o posto de madrinha de bateria em diferentes cidades brasileiras e atuar como jurada em tradicionais concursos de fantasias.

Pioneirismo na moda praia
Magda Cotrofê não se limitou a vestir tendências. Também decidiu criá-las.
Como empresária e estilista, esteve à frente das marcas Ki Tanga, Star Light e Wooloko, construindo uma trajetória diretamente ligada à evolução da moda praia brasileira. Seu nome passou a ser associado à difusão de modelos como o fio dental e o asa-delta, peças que ajudaram a transformar a imagem do biquíni brasileiro dentro e fora do país.


“O biquíni sempre representou muito mais do que moda para mim. Ele fala de comportamento, liberdade, identidade e da própria imagem do Brasil. Tenho muito orgulho de ter participado de um período em que a nossa moda praia ganhou personalidade e conquistou o mundo.”
A atuação empreendedora avançou para outros segmentos. Em 2000, Magda cursou Comunicação Social, com especialização em jornalismo. Também ingressou no mercado de joias com a MC Cotrofê Joias, desenvolvendo trabalhos como designer.
A partir de 2007, ampliou sua atuação na área cultural, contribuindo para levar grandes espetáculos a cidades do interior do Estado do Rio de Janeiro.

Bikini Art Museum e a preservação de uma história
Em 2017, um novo reconhecimento internacional reforçou a relação de Magda com a história da moda praia: o convite para atuar como curadora e representante na América Latina do Bikini Art Museum, localizado em Bad Rappenau, na Alemanha e dedicado à história do biquíni.
Sua trajetória também está presente em registros e publicações sobre moda, entre elas Moda Rio, de Iesa Rodrigues; Biquíni Made in Brasil, de Lilian Pacce; Um Mergulho no Rio, de Marcia Disitzer; e Almanaque 80. Seu nome também integra registros relacionados à exposição “Yes! Nós Temos Biquíni”, idealizada por Lilian Pacce.
Após passar uma longa temporada nos Estados Unidos, onde estudou e ampliou sua experiência internacional, Magda continuou conectada ao Brasil e especialmente ao Rio de Janeiro. Em 2020, recebeu o título de Embaixadora do Turismo da Cidade do Rio de Janeiro.
Ao longo da carreira, também recebeu duas indicações ao Troféu Imprensa: uma como atriz revelação, ao lado de Luiza Brunet e Monique Evans, e outra na categoria de melhor modelo.

“O Outro Olhar de Magda Cotrofê”
Em 2025, Magda decidiu transformar décadas de experiências em memória escrita com o lançamento de sua autobiografia, “O Outro Olhar de Magda Cotrofê”.
Na obra, revisita episódios pessoais e profissionais, revelando os bastidores de uma trajetória vivida entre moda, televisão, cinema, empreendedorismo e cultura. O livro apresenta ao público não apenas a personagem conhecida pelas capas e pela televisão, mas também a mulher por trás da imagem construída ao longo de décadas.
“Escrever minha história foi uma oportunidade de olhar para o passado com maturidade e perceber quantas mulheres existiram dentro de mim ao longo desses anos. A modelo, a atriz, a empresária, a mãe, a profissional e, principalmente, a mulher que precisou aprender a se reinventar.”
A autobiografia também ajuda a registrar uma época importante da cultura e do entretenimento brasileiro pela perspectiva de quem a viveu intensamente.

Uma trajetória que continua
Décadas depois dos primeiros passos nos palcos de Campos dos Goytacazes, Magda Cotrofê continua escrevendo novos capítulos de sua história. Atualmente, atua como consultora do Bikini Art Museum na América Latina, contribuindo para a preservação e valorização da memória da moda praia.
Sua trajetória reúne diferentes faces de uma mesma personalidade: modelo, atriz, apresentadora, estilista, empresária, jornalista e agente cultural.
Mais do que símbolo de beleza de uma geração, Magda construiu uma carreira marcada pela capacidade de acompanhar as transformações do tempo sem abandonar sua identidade.
“Nunca quis viver apenas do que fiz no passado. Tenho carinho e orgulho pela minha história, mas acredito que a vida precisa continuar nos provocando a criar, aprender e começar novamente. Reinventar-se também é uma forma de permanecer viva na memória das pessoas.”
De Campos dos Goytacazes para as passarelas internacionais, das capas de revistas à televisão, do Carnaval ao empreendedorismo e da moda praia à preservação cultural, Magda Cotrofê transformou sua própria reinvenção em parte de seu legado.

ENTREVISTA:
RMB – Magda, sua trajetória começou ainda na infância, em Campos dos Goytacazes. Quais lembranças daquela menina de oito anos você considera fundamentais para a mulher e profissional que se tornou?
Magda – Aquela menina de oito anos já tinha uma característica que me acompanhou pela vida inteira: curiosidade. Eu queria experimentar, aprender, estar em movimento. Comecei no teatro infantil e também fazia trabalhos para jornais e revistas locais. Ao mesmo tempo, a patinação artística ocupava um espaço enorme na minha vida. Eu me tornei conhecida em Campos como a “ás dos patins” e, ainda adolescente, já dava aulas de patinação.
Hoje, olhando para trás, percebo que tudo aquilo me ensinou muito antes de eu sequer imaginar que teria uma carreira. O teatro me deu desenvoltura, a patinação me ensinou disciplina e a vida em uma cidade do interior me deu raízes. Acho que a Magda adulta nasceu ali: uma menina que não tinha medo de experimentar e que aprendeu desde cedo que talento precisa caminhar junto com dedicação.
RMB – Nos anos 1980, você se tornou um dos grandes nomes da moda brasileira e conquistou uma projeção nacional impressionante. Como foi viver esse período de intensa exposição e quais foram os maiores desafios por trás do sucesso?
Magda – Os anos 1980 foram absolutamente intensos. Era uma época em que a televisão, as revistas e a moda tinham uma força enorme na formação de ícones, e eu vivi tudo isso muito de perto. De repente, minha imagem estava em todos os lugares e havia uma cobrança enorme para estar sempre bonita, preparada e correspondendo às expectativas.
Por trás do glamour existia muito trabalho. Viagens, ensaios, gravações, desfiles, eventos e uma rotina que muitas vezes não permitia descanso. O maior desafio era justamente não me perder dentro da personagem pública. Eu precisava entender quem era a Magda que o público conhecia e, principalmente, quem era a Magda que existia quando os holofotes se apagavam.
Foi uma escola de vida. Aprendi a lidar com exposição, críticas, elogios e, principalmente, a construir uma identidade profissional que não dependesse apenas da aparência.


RMB – Você fez história ao estampar a capa da Playboy por três anos consecutivos. O que esse momento representou para sua carreira e como você enxerga hoje a importância dessas capas na sua trajetória?
Magda – As capas da Playboy foram de extrema relevância para minha carreira porque consolidaram uma imagem que já vinha sendo construída através da moda, da televisão e da mídia. Foram trabalhos que exigiram confiança, profissionalismo e consciência da força que uma imagem poderia ter naquele momento.
Olhando com a distância do tempo, vejo essas capas como documentos de uma época e como parte importante da história da minha carreira. Mais do que a sensualidade, elas representam um período em que eu estava no auge da exposição e em que meu nome se tornou reconhecido nacionalmente.
Também aprendi que uma imagem pode marcar uma geração, mas uma carreira precisa ser muito maior do que uma fotografia.
RMB – Sua carreira passou pela moda, televisão, cinema, teatro e Carnaval, ao lado de grandes nomes da cultura brasileira. Qual dessas experiências mais marcou sua vida profissional e emocionalmente?
Magda – É difícil escolher apenas uma, porque cada fase me transformou de uma maneira diferente. O teatro foi muito importante porque foi onde comecei e onde aprendi a me expressar. A televisão me deu projeção nacional e me permitiu trabalhar ao lado de pessoas que são verdadeiras referências, como Jô Soares, Silvio Santos, Hebe Camargo, Chacrinha, Flavio Cavalcanti, Gugu Liberato, a lista é enorme.
O Carnaval também ocupa um lugar muito especial na minha história, me deu projeção nacional e internacional. Ser reconhecida como musa e viver aquela energia do Rio de Janeiro foi uma experiência única.
Mas talvez o que mais me marcou tenha sido justamente a possibilidade de transitar por mundos tão diferentes. Eu nunca quis ser apenas uma coisa. Sempre tive vontade de aprender, experimentar e me reinventar. E acredito que essa capacidade de transformação é uma das características mais fortes da minha trajetória.


RMB – Além de modelo e atriz, você também se destacou como empresária e estilista, contribuindo para a popularização do fio dental e do asa-delta. Como surgiu sua relação com a moda praia e o desejo de transformar tendências em negócios?
Magda – A moda praia sempre esteve muito presente na minha vida, especialmente porque o biquíni acabou se tornando uma parte importante da cultura brasileira e também da minha própria imagem. Eu acompanhei de perto a transformação dos modelos, dos cortes e da maneira como as mulheres passaram a se relacionar com o próprio corpo.
Minha atuação esteve muito ligada à divulgação, à criação de propostas e ao desenvolvimento de produtos e marcas. Trabalhei com profissionais importantes da moda praia e participei desse movimento que ajudou a transformar o fio dental e o asa-delta em símbolos de uma estética brasileira.
Para mim, moda nunca foi apenas roupa. É comportamento, atitude, identidade e também negócio. Quando uma tendência consegue traduzir o desejo de uma época, ela pode se transformar em uma grande oportunidade.
RMB – Sua ligação com o biquíni ganhou dimensão internacional e hoje você atua como consultora do Bikini Art Museum na América Latina. O que significa contribuir para a preservação da história de uma peça tão ligada à identidade e à moda brasileira?
Magda – É uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma honra. O biquíni não é simplesmente uma peça de roupa. Ele representa uma transformação cultural enorme. Desde a sua criação, há 80 anos, ele passou por mudanças de comportamento, estética, liberdade e representação do corpo feminino.
O Brasil teve um papel muito importante nessa história, especialmente pela maneira como transformou o biquíni em um elemento cultural e de identidade. Como consultora do Bikini Art Museum na América Latina, tenho a oportunidade de ajudar a contar essa história e preservar personagens, criações e momentos que não podem ser esquecidos.
E acredito que essa história precisa ser contada de maneira ampla, valorizando não apenas as peças, mas também os estilistas, empresários, modelos, fotógrafos e todos aqueles que ajudaram a construir a cultura da moda praia.

RMB – Em 2025, você lançou a autobiografia “O Outro Olhar de Magda Cotrofê”. O que o público encontra no livro sobre a mulher que existia por trás da modelo, atriz e personalidade conhecida nacionalmente?
Magda – O livro mostra justamente aquilo que muitas vezes não aparece nas fotografias. Durante décadas, as pessoas conheceram a Magda da televisão, das revistas, das capas, dos desfiles e do Carnaval. Mas existe uma mulher muito maior por trás dessa imagem.
Em “O Outro Olhar de Magda Cotrofê”, eu conto minhas conquistas, mas também minhas dúvidas, desafios, escolhas, recomeços e aprendizados. É uma história sobre uma mulher que precisou se reinventar várias vezes sem perder sua essência.
Acho que o título traduz exatamente isso: oferecer ao leitor um outro olhar. Não quero que ele veja apenas a personagem pública. Quero que conheça a mulher, com suas fragilidades, sua força, seus sonhos e sua capacidade de continuar caminhando.
RMB – Depois de tantas transformações e reinvenções, qual legado Magda Cotrofê deseja deixar para as novas gerações de mulheres que trabalham com moda, beleza, comunicação e empreendedorismo?
Magda – Quero deixar a mensagem de que nunca é tarde para se reinventar e que a nossa história não precisa ficar presa a uma única fase da vida.
A aparência pode abrir uma porta, mas é o conhecimento, o trabalho, a personalidade e a capacidade de se reinventar que fazem você permanecer. Eu vivi diferentes épocas, diferentes profissões e diferentes versões de mim mesma, e continuo tendo projetos e sonhos.
Para as novas gerações, eu diria: não tenham medo de ocupar espaço, de envelhecer, de mudar de caminho ou de começar novamente. Não permitam que ninguém determine até onde vocês podem chegar.
Meu maior legado talvez seja esse: mostrar que uma mulher pode ser muitas mulheres ao longo da vida — e que cada uma delas pode ser ainda mais interessante que a anterior.

Magda Cotrofê participou do programa Calderão com Mion da Tv Globo – Foto: Júnior Dantas
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