Quando a perda capilar ultrapassa a estética e toca a identidade, a memória e a autoestima
Por Hérika Olliveira
Tricologista, Terapeuta Capilar, Terapeuta Naturopata e Perita Tricológica
Quem foi a primeira pessoa que cuidou do seu cabelo?
Talvez sua mãe, seu pai, sua avó ou alguém que fez parte dos seus cuidados na infância. Pode parecer uma pergunta simples, mas ela ajuda a compreender por que perceber o cabelo afinando, mudando ou caindo pode provocar um sofrimento que vai muito além da aparência.
Na minha história, tudo começou com a minha mãe. Quando criança, eu tinha os cabelos abaixo da cintura, e ela cuidava deles com um esmero do qual me lembro até hoje. Penteava, fazia tranças e inventava penteados. Hoje percebo que não era apenas o cabelo sendo cuidado. Era o nosso tempo juntas, uma forma de acolhimento, de carinho e de amor.

Certa vez, uma tia achou que meu cabelo comprido dava trabalho demais e me levou ao salão para cortá-lo bem curto. Quando voltamos para casa, minha mãe ficou indignada. Minha tia tentou se justificar dizendo: “Mas esse cabelo dá muito trabalho.” Minha mãe respondeu: “Mas não dá trabalho para você. Dá trabalho para mim.”
Nunca esqueci essa frase, porque, para minha mãe, cuidar dos meus cabelos não era um peso. Era uma forma de cuidar de mim. Talvez eu não tivesse condições de compreender isso naquela época, mas aquela experiência ficou guardada em algum lugar da minha memória e, muitos anos depois, ganhou um significado ainda maior.

O cabelo também guarda memória
O cabelo está nas fotografias da infância, nas mudanças da adolescência, nos relacionamentos, no envelhecimento e nos recomeços. Mudamos o corte, a cor, deixamos crescer, assumimos os fios brancos ou voltamos aos cachos. De alguma maneira, procuramos no espelho uma imagem que converse com quem somos e com o momento que estamos vivendo.
Por isso, quando o cabelo muda ou começa a cair, algumas pessoas sentem que algo nelas também está mudando. No atendimento, escuto frases como “não me reconheço mais”, “não gosto mais de tirar fotos” ou “parece que estou envelhecendo muito rápido”. São falas que mostram como a relação com o cabelo pode alcançar lugares muito mais profundos do que a aparência.
Esse sofrimento não deve ser reduzido à vaidade. Também não existem duas histórias iguais. A frase “meu cabelo está caindo” pode esconder realidades completamente diferentes, porque cada pessoa chega trazendo não apenas as características dos fios e do couro cabeludo, mas também sua história, seus receios e a maneira particular como aquela mudança está sendo vivida.

Por isso, acredito que um atendimento capilar não deveria começar com um protocolo pronto. A tricoscopia e outros recursos nos ajudam a observar o couro cabeludo e os fios com mais detalhes, oferecendo informações importantes para a condução do atendimento. Mas nenhuma tecnologia é capaz de mostrar o medo diante do espelho ou revelar o significado daquela perda para aquela pessoa. A tecnologia amplia o olhar, mas não substitui a escuta.
O que levei mais de 20 anos para compreender
Recentemente, enquanto preparava uma palestra, encontrei a resposta para uma pergunta que me acompanhava há muito tempo: por que gosto tanto de cuidar de cabelos e de pessoas? Percebi que a resposta estava na minha própria infância, nas mãos da minha mãe, nas tranças, nos penteados, nos coques para o balé e naquele tempo que era só nosso.
Talvez o que tenha permanecido em mim durante todos esses anos não seja simplesmente o amor pelo cabelo, mas o amor pelo cuidado. Sem perceber, posso ter transformado em profissão uma das primeiras formas de cuidado que recebi.

Hoje tenho conhecimentos, técnicas e tecnologias que minha mãe não tinha quando penteava meus cabelos. Mais de 20 anos de atuação profissional também me ensinaram a observar cada história de uma maneira diferente. Mas há algo que nenhuma tecnologia deveria substituir: a capacidade de cuidar de alguém e de compreender que, diante de nós, existe uma pessoa antes de existir um cabelo a ser tratado.
Porque, para muita gente, quando o cabelo cai, não são apenas fios que estão sendo perdidos. A perda pode tocar a identidade, a memória, a autoestima e a maneira como nós reconhecemos diante do espelho.
Porque cabelo nunca é só cabelo.
Contatos Instagram: @tricologiaesaudecapilar
Telefone: (21) 997770746
Site: www.herikaolliveira.com

